Quando o café muda uma família, ele também transforma uma geração
O aroma que hoje encanta especialistas e consumidores começou como parte da rotina de uma família indígena. Anos depois, o café produzido pelos Paiter Suruí passou a ser reconhecido entre os melhores do mundo e abriu novas oportunidades dentro da própria comunidade.
Essa história foi contada por Daniel Suruí, filho do produtor Rafael Suruí, durante entrevista ao RURALCAST, podcast apresentado por Adalto Costa, na cobertura especial do Dia de Campo Paiter Suruí, realizado na Comunidade Lapetanha, na Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal.
Barista e integrante da nova geração da cafeicultura indígena, Daniel explicou como o sucesso alcançado pelo pai despertou nele o desejo de conhecer mais profundamente o universo dos cafés especiais.
"Quando meu pai conquistou os 100 pontos, isso me incentivou muito. Foi aí que nasceu o interesse em estudar café e me tornar barista."
Da produção à xícara
Enquanto Rafael Suruí ficou conhecido pela produção de um café de excelência, Daniel decidiu seguir outro caminho dentro da mesma cadeia produtiva.
Ao perceber que produzir um grande café também exige saber apresentá-lo ao consumidor, buscou formação como barista para entender cada etapa do preparo da bebida.
O primeiro passo foi participar do curso promovido pela Três Corações, em Cacoal.
"Meu pai abriu espaço para mim e isso despertou ainda mais o meu interesse. Hoje continuo estudando para evoluir como barista."
Segundo Daniel, aprender diferentes métodos de extração permite revelar características únicas do café produzido pela própria família.
O prêmio motivou toda a comunidade
O reconhecimento obtido pelo café de Rafael Suruí não ficou restrito à família.
Daniel conta que a conquista incentivou outros indígenas a investir na cafeicultura e despertou o interesse de jovens que antes não enxergavam o café como uma oportunidade de futuro.
"Isso motivou bastante os agricultores indígenas. Hoje muita gente passou a acreditar ainda mais no café."
Dentro da própria família, o envolvimento também aumentou.
Se antes o trabalho ficava concentrado no pai, hoje outros parentes participam da produção, do beneficiamento e da divulgação do café.
A aldeia quer receber visitantes
Além de ampliar a produção, a comunidade também trabalha em um novo projeto.
A ideia é transformar a aldeia em um espaço de visitação, onde turistas possam conhecer as lavouras, acompanhar o preparo da bebida e experimentar o café diretamente na origem.
Daniel explica que a estrutura já está sendo preparada.
"Estamos organizando tudo para que as pessoas possam visitar a comunidade e conhecer o nosso café."
A proposta une turismo, cultura indígena e valorização da produção local.
Mais do que produzir, é preciso contar a história
Durante a conversa, Daniel destacou que o café produzido pelos Paiter Suruí carrega uma identidade própria.
Cada xícara representa o trabalho da comunidade, a preservação da floresta e o cuidado dedicado em todas as etapas da produção.
Por isso, ele acredita que preparar pessoalmente o café para os visitantes cria uma experiência diferente.
"É muito bom preparar o nosso café para que as pessoas conheçam o sabor do que produzimos."
Uma nova geração chega ao agro indígena
A presença de Daniel no evento chamou atenção justamente por representar uma nova etapa da cafeicultura indígena.
Se a geração anterior ficou responsável por desenvolver a produção, agora os jovens começam a ocupar espaços ligados ao beneficiamento, à degustação, ao turismo e à comercialização.
Essa diversificação amplia as possibilidades de renda dentro das comunidades.
Conhecimento que inspira outros jovens
Ao participar do Dia de Campo Paiter Suruí, Daniel afirmou que se sentiu motivado ao ver tantos indígenas reunidos para aprender sobre café, cacau, mel e fruticultura.
"Estou muito feliz por participar desse evento. Para mim é uma experiência muito importante."
Segundo ele, momentos como esse aproximam produtores, técnicos e pesquisadores, fortalecendo ainda mais o desenvolvimento da agricultura indígena.
O café continua escrevendo novas histórias
Ao encerrar a entrevista ao RURALCAST, Daniel demonstrou gratidão pelo caminho construído por sua família e pelo reconhecimento conquistado pelo café produzido na aldeia.
A história mostra que um grande café não transforma apenas uma propriedade. Ele inspira pessoas, cria oportunidades para os jovens e fortalece comunidades inteiras.
Hoje, enquanto Rafael Suruí segue elevando o nome da cafeicultura indígena brasileira, Daniel assume um novo papel: apresentar esse café ao mundo, uma xícara de cada vez.
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