Uma vida dedicada à agricultura familiar
A história da agricultura de Cacoal e de Rondônia foi o principal assunto de mais uma edição do RuralCast, podcast do Grupo Amazun transmitido pelo canal Olá Rondônia no YouTube.
Apresentado por Adalto Costa, o episódio recebeu Sebastião Marcelo, liderança conhecida como Tião da Agricultura, Tião da Ceplac e Tião da Emater. Durante a entrevista, ele compartilhou experiências acumuladas ao longo de décadas de trabalho junto aos produtores rurais.
Sebastião Marcelo chegou a Cacoal em 1979, após concluir o curso técnico em Agropecuária. Naquele mesmo ano, foi contratado pelo antigo Instituto Brasileiro do Café, o IBC, para prestar assistência técnica aos projetos de cafeicultura financiados na região.
Posteriormente, sua trajetória passou pela Emater, pela administração municipal e pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira, a Ceplac. Em 1989, durante o primeiro mandato do então prefeito Divino Cardoso, assumiu a Secretaria Municipal de Agricultura de Cacoal.
“A história da agricultura familiar, principalmente no município de Cacoal, começa para mim quando cheguei, em 1979, e permaneci aqui”, afirmou.
A valorização de quem construiu a história
Logo no início da conversa, Sebastião destacou a importância de preservar a memória das pessoas que enfrentaram as dificuldades do passado e ajudaram a construir a atual força produtiva de Rondônia.
Para representar essa realidade, o convidado utilizou uma frase marcante:
“Só sabe o valor de um copo de água quem carrega o balde cheio de água.”
A declaração resume, segundo ele, a necessidade de reconhecer os agricultores, técnicos, extensionistas e lideranças comunitárias que participaram da abertura de estradas, da construção de pontes, da implantação das primeiras lavouras e da organização das comunidades rurais.
Sebastião relembrou que, naquele período, as dificuldades iam muito além da produção. Era necessário mobilizar os próprios moradores para colaborar com alimentação de operadores, fornecimento de madeira e outras contrapartidas utilizadas na construção de pontes, bueiros, escolas e estradas.
Essas estruturas eram indispensáveis para permitir o acesso às propriedades e garantir o escoamento da produção agrícola.
Estradas e comunidades construídas coletivamente
Durante o episódio, o convidado explicou a importância de projetos de infraestrutura financiados pelo Banco Mundial para o desenvolvimento de Rondônia. Entre as iniciativas citadas esteve o Polonoroeste, que apoiou a abertura de estradas, a construção de escolas rurais, armazéns comunitários e travessões.
Sebastião também lembrou a criação dos Núcleos Urbanos de Apoio Rural, que contribuíram para oferecer estrutura às famílias que viviam nas áreas produtivas. Alguns desses núcleos, ao longo do tempo, deram origem ou fortaleceram localidades e municípios.
Segundo o convidado, as comunidades participavam ativamente dessas transformações. A união dos agricultores permitia que obras importantes fossem realizadas mesmo diante das limitações existentes naquele período.
A extensão rural precisa ser humana
Um dos momentos centrais da entrevista foi a reflexão sobre a verdadeira função da extensão rural. Para Sebastião, o trabalho do extensionista não pode ficar restrito à transmissão de técnicas de plantio, manejo e produtividade.
O profissional precisa conhecer a família, compreender sua realidade e construir uma relação de confiança com o produtor.
“Não basta ser técnico, tem que ser humano. Você tem que chorar quando for preciso chorar junto e sorrir no sucesso.”
Sebastião explicou que sempre considerou o ser humano como o elemento mais importante de qualquer atividade produtiva. Antes de observar a quantidade de café, cacau ou qualquer outra cultura, o técnico deve avaliar as condições da família responsável pela propriedade.
“Não adianta você ter dez mil pés de café se o produtor está depressivo ou doente. Primeiro é o homem, é o ser humano”, ressaltou.
Na avaliação do convidado, a assistência técnica precisa novamente se aproximar das famílias, respeitar suas particularidades e ajudar na organização econômica, social e produtiva das propriedades.
Pequenas propriedades movimentam Cacoal
Ao analisar a estrutura fundiária de Cacoal, Sebastião Marcelo destacou o protagonismo da agricultura familiar. Conforme os dados mencionados por ele durante o podcast, o município possuía aproximadamente 5.500 propriedades no levantamento de 2023, sendo cerca de 70% delas menores que 40 alqueires.
Esse perfil demonstra que uma parcela expressiva da produção e da circulação de renda é sustentada por pequenas propriedades.
Sebastião lembrou que muitas famílias chegaram à região enfrentando grandes dificuldades, mas conquistaram melhores condições de vida com trabalho, persistência e orientação técnica.
“O crescimento vem do trabalho honesto, da justiça e da bênção de Deus.”
As feiras realizadas ao longo da semana também foram citadas como demonstração da diversidade e da capacidade produtiva dos agricultores de Cacoal.
O desafio de adaptar conhecimentos
Sebastião recordou que um dos primeiros desafios enfrentados pelos extensionistas foi convencer agricultores vindos de outros estados a adaptar suas técnicas às condições de Rondônia.
Produtores originários do Espírito Santo, de Minas Gerais, do Paraná e de outras regiões traziam conhecimentos importantes, mas nem todas as práticas utilizadas em seus estados de origem apresentavam os mesmos resultados no solo e no clima rondonienses.
“As condições são parecidas, mas não são iguais.”
Além das diferenças técnicas, havia resistência natural em aceitar orientações de profissionais mais jovens. O trabalho exigia paciência, demonstrações práticas e resultados concretos para conquistar a confiança das famílias.
Segundo Sebastião, a transformação de comportamento não acontece rapidamente. As pessoas precisam acompanhar os resultados e perceber, na prática, a viabilidade das novas tecnologias.
A crise do café e a resistência dos produtores
A entrevista também abordou um dos períodos mais difíceis da cafeicultura. Por volta de 2001, o preço da saca de café chegou a aproximadamente R$ 20, levando muitos agricultores a abandonarem suas lavouras.
Sebastião participou de mobilizações e visitas técnicas para orientar os produtores a não derrubar os cafezais. O argumento era que eliminar uma plantação já estabelecida também significava perder todo o investimento realizado durante sua implantação.
Mesmo com as ações de conscientização, ele estima que aproximadamente 75% do parque cafeeiro tenha sido eliminado naquele período.
A partir de 2007, entretanto, a cafeicultura rondoniense começou a passar por uma importante transformação, impulsionada pela implantação de lavouras clonais, pela adoção de novos espaçamentos, pelo manejo das plantas e pelo aperfeiçoamento das técnicas de poda e produção.
O convidado destacou que pesquisadores, técnicos, viveiristas e produtores participaram desse processo. As propriedades que obtinham bons resultados abriam suas portas para visitas, permitindo que outros agricultores conhecessem as novas práticas.
O café clonal e a modernização das lavouras
A implantação do café clonal representou uma mudança decisiva para Rondônia. As novas práticas exigiram alterações em sistemas de cultivo que já estavam consolidados entre os agricultores.
Sebastião explicou que os produtores precisaram modificar espaçamentos, reduzir a quantidade de plantas por cova, realizar podas e renovar os ramos produtivos. Para vencer a resistência, técnicos promoviam excursões e acompanhavam agricultores em propriedades onde as novas técnicas já apresentavam resultados.
“As pessoas precisam ver para crer.”
Com o tempo, os exemplos bem-sucedidos estimularam a adoção das tecnologias. Esse movimento contribuiu para o aumento da produtividade, o fortalecimento do café robusta amazônico e a valorização do produto de Rondônia.
Apesar dos avanços, Sebastião defendeu que os verdadeiros protagonistas dessa história sejam reconhecidos.
“Precisamos devolver o café aos agricultores, aos cafeicultores, porque é deles toda essa história.”
Cacau, sustentabilidade e geração de renda
O cacau também ocupou espaço importante na entrevista. Sebastião explicou que, durante muitos anos, a cultura recebeu menos atenção porque grande parte dos agricultores que chegou à região possuía maior tradição com o café.
Para muitos produtores, o cacau era visto como uma atividade complementar. Entretanto, suas características fazem dele uma alternativa estratégica para as pequenas propriedades.
“O cacau é uma atividade da agricultura familiar, artesanal, manual, que gera emprego e é ecologicamente correta.”
O convidado defendeu mais assistência técnica, extensão rural e incentivo para a cadeia produtiva. Na sua avaliação, o cacau pode contribuir para a diversificação das propriedades, para a preservação ambiental e para a ampliação da renda das famílias rurais.
Diversificar para proteger a propriedade
Sebastião alertou que a agricultura familiar não deve depender exclusivamente de uma cultura. A propriedade precisa combinar café, cacau, pomar, criação de galinhas, produção de leite e outras atividades que possam gerar alimentos e renda.
Essa diversificação ajuda as famílias a enfrentar oscilações de preços, problemas climáticos e eventuais perdas de produção.
O convidado explicou que as despesas das famílias rurais aumentaram e se tornaram mais diversificadas. Atualmente, há gastos com energia elétrica, telefonia, combustível, transporte, equipamentos e manutenção.
Por esse motivo, planejamento e administração são indispensáveis até mesmo nas menores propriedades.
“A extensão rural e a assistência técnica para a agricultura familiar precisam trabalhar administração, diversificação da propriedade e associativismo”, reforçou.
Associativismo é o caminho para crescer
A organização coletiva foi um dos temas mais enfatizados por Sebastião Marcelo. Ele lembrou que Cacoal já chegou a possuir aproximadamente 44 associações rurais em funcionamento. Atualmente, segundo sua estimativa, esse número pode não chegar a 18 entidades realmente ativas.
Para explicar a importância da união, o convidado recordou um ensinamento de sua mãe:
“Caititu fora da manada é comida de onça.”
A mensagem mostra que um produtor isolado fica mais vulnerável, enquanto o grupo organizado aumenta sua capacidade de negociação, compra insumos por preços melhores, vende a produção em maior escala e consegue defender interesses comuns.
“Se você está mais junto, está mais forte.”
Sebastião relatou que, em determinada ocasião, tentou reunir produtores para comercializar café coletivamente. Caso conseguissem formar um lote maior, receberiam R$ 15 adicionais por saca. Mesmo diante da vantagem financeira, não foi possível reunir o grupo, demonstrando que a falta de confiança e organização ainda limita oportunidades.
Associações não devem existir somente para receber máquinas
O convidado alertou que associações e cooperativas não podem ser criadas apenas para receber tratores, implementos ou emendas públicas. Esses equipamentos possuem custos de combustível, operador e manutenção.
Quando não há planejamento ou responsabilidade coletiva, máquinas acabam abandonadas ou inutilizadas.
“Associativismo e cooperativismo são a saída, mas precisam de dedicação e investimento. No mundo não existe nada de graça.”
Para Sebastião, as entidades devem recuperar seu propósito original: organizar a compra conjunta de insumos, melhorar a comercialização, compartilhar estruturas e representar os agricultores perante o poder público.
Planejamento público deve ouvir quem vive no campo
Outro ponto abordado foi a necessidade de incluir os produtores na elaboração das políticas públicas. Sebastião explicou que as pessoas que moram nas comunidades conhecem o comportamento das águas, as condições das estradas, os pontos críticos das pontes e as necessidades prioritárias de cada região.
Projetos elaborados sem ouvir quem vivencia a realidade rural podem apresentar falhas ou direcionar recursos para ações menos urgentes.
“Quando for fazer um planejamento, precisa chamar as pessoas que fazem parte do dia a dia.”
Na sua avaliação, agricultores, técnicos e lideranças comunitárias devem participar das reuniões e decisões que tratam do futuro do campo.
O futuro depende de união e representatividade
Sebastião demonstrou confiança no potencial de Rondônia, mas afirmou que o crescimento sustentável dependerá da capacidade de união dos produtores.
Ele reconheceu que não haverá unanimidade em todas as questões, mas ressaltou que existem objetivos comuns, como o fortalecimento da agricultura familiar, a melhoria da infraestrutura, a assistência técnica e a valorização da produção.
“Isolado, ninguém vai a lugar nenhum. Pode até se manter, mas, se quiser crescer, terá que se unir.”
O convidado também recomendou atenção na escolha dos representantes políticos. Para ele, é fundamental apoiar pessoas que conheçam a realidade rural e compreendam todo o processo existente entre o plantio, a colheita, a comercialização e a chegada do alimento à mesa da população.
“O mundo não é uma concorrência, é cooperação”
Na mensagem final, Sebastião Marcelo destacou a solidariedade, a fé e a importância de fazer o bem sem esperar reconhecimento imediato.
Comparando as boas ações ao plantio de diferentes sementes, ele lembrou que algumas germinam rapidamente, enquanto outras precisam de mais tempo. Ainda assim, o resultado chega no momento adequado.
“Nunca perca a oportunidade de fazer o bem.”
Sebastião concluiu defendendo uma sociedade baseada na cooperação, na justiça e no respeito entre as pessoas:
“O mundo não é uma concorrência. O mundo é cooperação.”
A entrevista conduzida por Adalto Costa preserva uma parte importante da memória rural de Cacoal e mostra que o desenvolvimento agrícola de Rondônia foi construído por muitas mãos. Mais do que produtividade, o episódio do RuralCast valorizou as pessoas que dedicaram suas vidas ao campo e ajudaram a transformar pequenas propriedades em fontes de renda, dignidade e desenvolvimento.
Assista ao episódio completo do RuralCast:
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