Por trás das salas de aula, dos laboratórios, das pesquisas científicas e dos projetos de extensão de uma universidade pública, existe uma estrutura administrativa que nem sempre é percebida pela sociedade, mas que desempenha papel fundamental para o funcionamento da instituição.
Foi justamente essa realidade que ganhou destaque durante uma entrevista especial do RuralCast, podcast do Grupo Amazun, realizada durante a segunda edição do Agro&Cont 2026, nos dias 30 e 31 de outubro, na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), campus de Cacoal.
Conduzida pelo professor Charles Carminati, a conversa recebeu a administradora Milene Barbosa, especialista em Gestão Pública, mestre em Administração Pública e coordenadora administrativa do campus da UNIR em Cacoal.
Ao longo da entrevista, Milene apresentou uma visão sobre a importância dos servidores técnico-administrativos, o funcionamento dos processos de compras públicas, a gestão de contratos e os desafios enfrentados para oferecer serviços de qualidade à comunidade universitária.
A administração que mantém a universidade funcionando
Um dos primeiros pontos abordados foi o trabalho realizado pelos servidores que atuam nos setores administrativos das instituições federais de ensino.
Diferentemente dos professores e pesquisadores, que mantêm contato frequente com estudantes e com a sociedade, grande parte dos servidores administrativos desenvolve atividades que acontecem longe da atenção do público.
Milene explicou que sua coordenadoria atua em diferentes frentes, incluindo gestão patrimonial, acompanhamento de serviços terceirizados, apoio administrativo, organização de auditórios e manutenção de espaços utilizados pela comunidade acadêmica.
"Como eu falo, a Coordenadoria Administrativa é um setor que trabalha nos bastidores", destacou a entrevistada.
Segundo a coordenadora, mesmo que essas atividades não estejam diretamente relacionadas às aulas, elas são fundamentais para que a universidade cumpra sua finalidade institucional.
O objetivo é proporcionar condições adequadas para o desenvolvimento das atividades de ensino, pesquisa e extensão, garantindo ambientes mais seguros, organizados e funcionais.
A entrevista reforçou uma questão importante: a qualidade do ensino público também depende da eficiência da gestão dos recursos e da infraestrutura universitária.
Burocracia no serviço público: obstáculo ou proteção?
Outro tema de destaque foi a burocracia na administração pública.
Durante a conversa, Charles Carminati questionou por que procedimentos aparentemente simples, como a aquisição de computadores ou mobiliário, podem exigir diferentes etapas até sua execução.
Milene explicou que o funcionamento da administração pública é diferente daquele observado nas empresas privadas.
A compra de equipamentos e a contratação de serviços precisam seguir procedimentos formais, envolvendo planejamento, pesquisa de preços, documentação e outras exigências administrativas.
Para ela, embora essas etapas possam tornar os processos mais demorados, também possuem uma finalidade importante.
"Não que a burocracia seja ruim por si só", afirmou.
A entrevistada explicou que os procedimentos administrativos ajudam a prevenir práticas como o patrimonialismo e a corrupção, além de contribuir para a correta aplicação dos recursos públicos.
Entretanto, ressaltou que a administração também precisa buscar agilidade.
O desafio, portanto, é encontrar o equilíbrio entre o cumprimento das exigências legais e a prestação de serviços públicos eficientes.
Fiscalização de contratos é fundamental para preservar o patrimônio público
A gestão de contratos terceirizados foi outro assunto detalhado durante a entrevista.
Milene explicou que a Coordenadoria Administrativa acompanha contratos relacionados a serviços de vigilância, manutenção de aparelhos de ar-condicionado, manutenção predial e outras atividades necessárias à conservação das instalações universitárias.
Esses serviços são executados por empresas contratadas, mas exigem acompanhamento e fiscalização por parte da instituição.
Segundo a coordenadora, dificuldades relacionadas ao cumprimento das obrigações contratuais podem comprometer a manutenção da infraestrutura.
Por isso, o acompanhamento dos contratos e a adoção de medidas administrativas diante de descumprimentos representam atividades importantes para garantir a continuidade dos serviços.
A entrevistada também explicou que o campus de Cacoal participa das etapas de planejamento das contratações, enquanto determinadas fases dos procedimentos licitatórios são conduzidas pela estrutura administrativa da universidade em Porto Velho.
Orçamento limitado e desafios logísticos em Rondônia
A discussão também apresentou dificuldades específicas enfrentadas pela administração pública na região Norte do Brasil.
Milene observou que a localização geográfica de Rondônia pode representar um desafio para a contratação de serviços e para a aquisição de equipamentos.
Em determinados processos, empresas participantes das licitações estão sediadas em outras regiões do país, o que pode ocasionar dificuldades relacionadas ao transporte de materiais, prazos de entrega e atendimento de garantias.
Esses fatores podem prejudicar a execução dos contratos e atrasar a solução de necessidades administrativas.
Outro desafio mencionado foi a limitação orçamentária.
A coordenadora explicou que a administração do campus está vinculada à estrutura geral da UNIR, incluindo decisões e procedimentos que envolvem a direção local, a reitoria e as pró-reitorias.
Parte dos recursos é destinada a compromissos específicos, como contratos vigentes, diárias e passagens.
Dessa forma, a execução das atividades administrativas depende de planejamento, disponibilidade de recursos e articulação institucional.
A entrevista mostrou que nem toda dificuldade enfrentada por uma universidade está relacionada à falta de iniciativa dos servidores. Questões financeiras, logísticas e contratuais também interferem diretamente na capacidade de atendimento das demandas.
Quase 12 anos de serviço público e avanços na universidade
Durante o RuralCast, Milene compartilhou sua trajetória profissional.
Ela contou que sua relação com a UNIR começou em 2011, quando ingressou como estudante. Posteriormente, em 2014, passou a integrar o quadro de servidores da universidade.
Na entrevista, realizada em outubro de 2026, afirmou que completaria 12 anos de serviço público no mês de novembro.
Ao comparar a estrutura do campus com a realidade observada durante seus primeiros anos na instituição, destacou avanços na infraestrutura e no fortalecimento dos serviços administrativos.
Entre os exemplos mencionados estão as melhorias nos espaços físicos, a ampliação da organização dos contratos e o aperfeiçoamento dos procedimentos de fiscalização de empresas contratadas.
A coordenadora também ressaltou a modernização das atividades administrativas por meio de sistemas eletrônicos utilizados nos processos de compras e gestão pública.
Segundo ela, a digitalização trouxe novas possibilidades para o desenvolvimento do trabalho, inclusive com a utilização de ferramentas de inteligência artificial como apoio a determinadas atividades.
Apesar dos avanços, Milene reconheceu que ainda existem necessidades de melhorias estruturais, orçamentárias e operacionais.
"Muito já avançou, mas há muito que se avançar também", destacou.
Tecnologia e inteligência artificial na administração pública
A modernização dos procedimentos também integrou a discussão.
Milene explicou que diversas atividades administrativas passaram por processos de sistematização, permitindo maior organização das informações e utilização de ferramentas eletrônicas no cotidiano dos servidores.
Ela citou a evolução dos sistemas utilizados no planejamento de compras e em outros procedimentos do governo federal.
A inteligência artificial também foi mencionada como uma ferramenta capaz de auxiliar determinadas tarefas administrativas.
O debate evidenciou que a modernização tecnológica pode contribuir para o aprimoramento do serviço público, mas precisa estar associada ao conhecimento técnico e à observância dos procedimentos necessários à gestão dos recursos.
Serviço público oferece oportunidades para diferentes profissões
Durante a entrevista, Charles Carminati também chamou a atenção para as oportunidades profissionais existentes na estrutura administrativa das universidades federais.
O professor destacou que o funcionamento de uma instituição pública não depende exclusivamente de docentes, mas também de profissionais de diferentes formações.
Milene explicou que equipes administrativas podem reunir servidores graduados em Administração, Direito, Ciências Contábeis e outras áreas.
Essa diversidade de conhecimentos contribui para atividades relacionadas ao planejamento, à gestão de contratos, ao patrimônio e ao funcionamento institucional.
A conversa também buscou esclarecer a realidade do trabalho administrativo para estudantes e profissionais interessados em ingressar no serviço público por meio de concursos.
Dedicação e atualização constante são essenciais para o servidor público
No encerramento da entrevista, Milene Barbosa deixou uma mensagem voltada especialmente aos profissionais interessados em construir carreira na administração pública.
Segundo ela, a dedicação e a disposição para continuar aprendendo são características fundamentais para quem deseja desenvolver um trabalho eficiente.
A coordenadora explicou que a formação acadêmica não representa o fim do processo de aprendizagem, uma vez que legislações, procedimentos e ferramentas administrativas passam por mudanças.
"Precisamos estudar, precisamos nos dedicar, precisamos aprender", afirmou.
Ela também destacou a importância da boa vontade, da boa-fé e do comprometimento profissional, independentemente da esfera de atuação.
Na avaliação da entrevistada, o servidor deve buscar resultados efetivos e compreender que seu trabalho possui uma finalidade coletiva.
A mensagem também se aplica ao setor privado: o desenvolvimento profissional exige dedicação contínua, capacidade de adaptação e compromisso com a qualidade das atividades realizadas.
Gestão pública eficiente também significa desenvolvimento regional
A participação de Milene Barbosa trouxe ao RuralCast uma perspectiva diferente sobre a relação entre administração, contabilidade e desenvolvimento.
Embora o Agro&Cont tenha concentrado discussões sobre o agronegócio e seus desafios econômicos, a entrevista demonstrou que o funcionamento das instituições públicas também é parte importante da estrutura que sustenta a formação profissional, a pesquisa científica e a inovação regional.
Universidades precisam de professores, pesquisadores e estudantes, mas também dependem de servidores responsáveis pelo planejamento, conservação dos espaços, execução administrativa e acompanhamento dos recursos públicos.
A reflexão apresentada durante a conversa reforça a necessidade de valorizar o trabalho técnico-administrativo e ampliar o debate sobre eficiência, transparência e responsabilidade na gestão pública.
A entrevista com Milene Barbosa, conduzida pelo professor Charles Carminati, integrou a cobertura especial do RuralCast, do Grupo Amazun, durante o Agro&Cont 2026, realizado na UNIR, em Cacoal.
O conteúdo faz parte da série de entrevistas produzidas pelo Grupo Amazun para o canal Olá Rondônia, no YouTube.