Com a aproximação do período de matrículas e rematrículas para 2027, instituições de ensino privadas começam a definir os novos valores das mensalidades escolares. O reajuste é uma das decisões mais importantes do planejamento financeiro, especialmente diante da necessidade de equilibrar despesas com pessoal, infraestrutura, tecnologia e manutenção da qualidade pedagógica.
Entretanto, existe uma variável que pode comprometer as projeções: a inadimplência escolar. Mesmo quando o percentual de reajuste é suficiente para acompanhar a evolução dos custos, o atraso no pagamento das mensalidades pode impedir que o aumento previsto se transforme em dinheiro disponível no caixa.
“O reajuste das mensalidades não pode ser analisado apenas pelo aumento dos custos. As escolas também precisam considerar os índices de inadimplência e a previsibilidade dos recebimentos, porque não adianta aumentar o faturamento no papel se esse dinheiro não entra efetivamente no caixa”, afirma Laura Camargo, CEO e cofundadora da Neofin, empresa especializada em soluções de cobrança com inteligência artificial.
A Lei nº 9.870/1999 estabelece regras para a definição das anuidades escolares e determina que a proposta de contrato, o valor apurado e o número de vagas por sala sejam divulgados com antecedência mínima de 45 dias em relação à data final estabelecida para a matrícula. Deste modo, significa que as instituições precisam organizar seus cálculos antes do encerramento do período de matrículas, conforme o calendário adotado.
Para contadores e gestores escolares, o desafio é trabalhar com duas análises complementares: quanto a escola precisa cobrar para sustentar sua operação e quanto desse faturamento efetivamente será recebido dentro dos prazos previstos.
Como calcular o reajuste da mensalidade escolar para 2027?
O cálculo do reajuste escolar deve considerar a estrutura de custos da instituição, o número de alunos pagantes e as despesas necessárias para manter os serviços educacionais.
De acordo com a Lei nº 9.870/1999, o valor da anuidade ou semestralidade deve ter como base a última parcela legalmente fixada no ano anterior, multiplicada pelo número de parcelas do período letivo. Sobre essa base, podem ser considerados acréscimos proporcionais à variação dos custos com pessoal, custeio e aprimoramentos didático-pedagógicos, desde que comprovados por planilha de custos.
Na prática, a escola deve analisar despesas como salários e encargos trabalhistas, manutenção predial, energia, materiais pedagógicos, contratos de fornecedores e investimentos necessários à prestação dos serviços.
Outro indicador é o custo por aluno pagante. Ele permite avaliar quanto a instituição precisa arrecadar por estudante para cobrir suas despesas e preservar a sustentabilidade financeira.
Uma escola com custos crescentes e redução no número de alunos pagantes, por exemplo, pode enfrentar maior pressão sobre sua receita, mesmo sem mudanças significativas em sua estrutura física.
Inadimplência pode comprometer 95,6% do ganho previsto com o reajuste
Uma simulação de reajuste para uma instituição com 600 alunos mostra como a inadimplência pode alterar significativamente o resultado financeiro esperado. Considerando um reajuste de 6,69%, a escola teria uma receita adicional projetada de aproximadamente R$ 972 mil ao longo de um ano, caso todas as mensalidades fossem pagas conforme o previsto.
Entretanto, ao considerar um cenário de inadimplência equivalente a 6% da receita anual, o valor que deixa de entrar no prazo corresponde a aproximadamente 95,6% do ganho projetado com o reajuste. Ou seja, embora a instituição tenha atualizado seus preços, quase todo o benefício financeiro adicional pode ficar comprometido por pagamentos não realizados no vencimento.
É preciso diferenciar inadimplência de perda definitiva de receita. Parte dos valores atrasados pode ser recuperada posteriormente, mas a ausência desses recursos nas datas previstas prejudica o planejamento de pagamentos, investimentos e compromissos operacionais.
Reduzir a inadimplência em um ponto percentual pode ter efeito semelhante a um reajuste adicional
A mesma lógica pode ser observada pelo caminho inverso: melhorar a recuperação dos recebíveis produz um impacto financeiro comparável ao de aumentar as mensalidades. Na simulação considerada, a redução de um ponto percentual na inadimplência representa um efeito equivalente a aproximadamente 1,06% de reajuste adicional sobre a receita efetivamente recebida.
Dessa forma, significa que uma escola consegue reduzir a inadimplência de 6% para 5%, por exemplo, melhorando sua arrecadação sem precisar aplicar um percentual maior de reajuste aos responsáveis financeiros.
Inadimplência não pode ser incluída na planilha de reajuste escolar
Embora a inadimplência tenha impacto direto sobre o caixa, ela não pode ser utilizada como justificativa para elevar as mensalidades. A Lei nº 9.870/1999 estabelece que os acréscimos ao valor da anuidade devem estar relacionados à variação de custos com pessoal, custeio e aprimoramento didático-pedagógico, devidamente demonstrados na planilha prevista pela legislação.
A inadimplência não constitui uma rubrica autorizada para justificar o aumento. Dessa forma, a instituição não pode simplesmente transferir aos responsáveis que pagam em dia o custo financeiro decorrente dos atrasos de outros contratos.
Régua de cobrança deve começar antes da rematrícula
Para evitar que os atrasos comprometam os resultados financeiros de 2027, o planejamento da cobrança precisa começar antes do novo período letivo. Uma régua de cobrança estruturada permite organizar lembretes preventivos, avisos de vencimento, comunicações após atrasos e oportunidades de negociação conforme o histórico de pagamento de cada responsável financeiro.
O processo também deve respeitar os limites estabelecidos pela Lei nº 9.870/1999. Conforme o artigo 5º, a instituição privada pode recusar a renovação da matrícula de alunos inadimplentes, observadas as condições legais. Entretanto, o artigo 6º proíbe a aplicação de sanções pedagógicas em razão da inadimplência.
Nesse cenário, a cobrança humanizada, mas firme, torna-se fundamental para preservar a sustentabilidade financeira da escola sem comprometer o relacionamento com as famílias. O uso de tecnologias de automação permite organizar as comunicações, acompanhar os débitos e oferecer alternativas de negociação de maneira personalizada.
Definir o preço correto é necessário para a sustentabilidade da escola. Garantir que a receita prevista seja recebida nos prazos esperados é igualmente importante para transformar o planejamento de 2027 em resultado financeiro.